Luz é o sonho efêmero da Escuridão


2 de set de 2010

Breve Conto de Três Rostos


Branco - Avidez
Há uma casa que não tem onde morar: suas janelas olham para lugar nenhum; seus cômodos são um labirinto sem saída; o porão aberto para o vazio entre as estrelas; o telhado, um poço invertido de desespero.

O peregrino chega esperando guarida, desejando descanso - nada disso há de encontrar aqui. Os umbrais do solar zombam dele ao admití-lo, os serviçais a seu dispor são sombras traiçoeiras de antigos demônios íntimos; as refeições são frias e insípidas, o vinho amargo, os leitos são feitos de cacos de vidro. E apesar de tudo isso, o viandante se deixa ficar, esperando que o pesadelo a seu redor mude de figura, como o faz nos sonhos ingênuos de sua rotina.

O senhor das Farpas convida:

- “Conheça nossa morada, ó você que veio de longe; temos pouco a oferecer, mas o que temos é seu.”

- “Eu agradeço, gentil fidalgo, por uma dádiva além de meu merecimento!”

- “Sua gratidão, ainda que apreciada, deve ficar em seu coração - o que lhe oferecemos pode não ser de seu agrado. Eis minha prima, a senhora das Lágrimas: ela lhe fará companhia enquanto for nosso hóspede. Faço votos que a sua estada não nos desonre.”

E o peregrino se deixa cair na armadilha.

***

Vermelho - Miséria

A dama do solar se mostrou a altura de seu ofício: que visões foram reveladas nessa morada sombria! Quantos sonhos desfeitos, quanta ânsia sem resposta, quantos amores defuntos!

Num frenesi entre masoquista e sádico o peregrino declara seu amor à anfitriã:

- “Poderá haver visão mais bela e casta que a sua?”

- “A beleza - essa cruel - está naquele que a vê”, responde ela. E tendo dito isso, arranca-lhe os olhos, abandonando-o em seguida.

***

Amarelo - Rancor

Agora o peregrino cego vaga loucamente pela casa abandonada, rasgando o papel de parede das suas lembranças com as unhas de seu cansaço, derrubando a mobília dos seus projetos com os ossos de seus hábitos, quebrando as janelas da sua consciência com as pedras de seus desejos - tropeçando sempre por entre as paredes de uma vida desperdiçada, que demoram demais a desabar...

1 observador(es):

Isolado disse...

Yeaaah my little brother..., você sabe que não é o senhor do tempo, e sim o contrário!.
Se ainda não terminou, é porque ainda não chegou o tempo!. Quanto à armadilha..., não cai pela segunda vez, mesmo porque..., sempre temos uma segunda vez!.

Saudações brother..., mais um ano nos foi dado para fazermos o que quisermos!..., e nunca se esqueça que, sabendo usar , não vai faltar!!!!